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João Rabiço, o João da Fazendinha, poeta popular de Oliveira, MG, é aposentado da Rede Ferroviária Federal e produtor rural. Tem um jeito bíblico e paciente, sábio e catrumano, mineiríssimo, de ótimo caráter, prestativo e solidário ao extremo. Nascido em 1937, fez apenas o primário mas tem grandeza acadêmica. É um genuíno representante da estirpe popular da poesia crítica produzida no país.
Ao afrontar, de modo comedido, as convenções, Rabiço imprime à sua poesia o que Natália Correia detectou no serventes provençal – a livre manifestação das idéias, colaborando para a dessacralização da poesia, atividade que, além de lúdica, faz sentido enquanto põe em xeque e em choque a consciência fatigada do homem para restabelecê-lo em situação de lucidez perante o mundo.
“Busco no meu dia a dia, nos acontecimentos, nos casos que as pessoas contam, transformando-os em poemas”, destaca o poeta. “Sátira é uma forma discreta de se fazer crítica. Humor é a graça natural. Ironia é figura de estilo, e, às vezes, quer dizer zombaria, mordacidade”, conceitua de modo simples o seu simples versejar que toca profundamente as pessoas.
Para João Rabiço, “poesia popular é o que, escrito com a linguagem que fazemos uso no cotidiano, se identifica com o povo. A poesia popular focaliza bem os detalhes, e isso gera crítica ao errado, ao pitoresco, ao engraçado.”
É autor de “Rabiscos do Rabiço”, pelo Movimento de Resgate do Autor Inédito e Anônimo de Oliveira, e de “Poesias de João Rabiço”. Confira a seguir a lavra de Rabiço.
João Rabiço
Oliveira (MG), Brasil
O paquerador
Eu sou bom paquerador,
não brinco mesmo em serviço.
Paquero só com amor
mulheres sem compromisso.
Considero o fofoqueiro
um safado, um bandido,
e por eu ser sigiloso
sempre fui o preferido.
Às vezes me aparece
u´a dama comprometida,
por ela eu subo, e ela desce,
pro serviço eu, e ela, servida.
Sou um cara aventureiro,
topo qualquer parada,
como manso ou ligeiro,
respeito mulher casada.
Se é mulher solteira,
pode deixar – sou diabo!
mas se é casamenteira,
salto fora, que é rabo!
Co´a chegada dos anos
então mudei de vida,
agora eu me assanho
só com mulher traída.
Os direitos são iguais,
faço a vez do marido,
do jeito que ele trai,
merece ser traído.
João Rabiço
Oliveira (MG), Brasil
Beija-flor conquistador
Vou contar uma história
do famoso Beija-Flor,
toda ave depenava
e com ela fazia amor.
ele já estava manjado
e a revoada tramando
armadilha pro tarado
entre pios foi preparando.
Tudo tem seu dia certo,
Não foi preciso vingança.
As aves fizeram um cerco,
Beija-Flor entrou na dança.
Ele foi todo saliente
Pra cima de um tapume.
Pegou foi um cigarro quente
julgando ser vagalume.
Logo veio o seu fracasso,
foi por terra a valentia,
as aves deram um abraço
e o Beija-Flor só ardia.
Com a classe aventureira
Isso sempre acontece.
Quem vai sem eira nem beira
ganha só o que merece.
João Rabiço
Oliveira (MG), Brasil
Caninana
Tem sogra que é daquelas,
só fala da vida alheia,
para si fecha a tramela,
pros outros faz cara feia.
O que passa com as pessoas,
ela fica pescoçando,
depois junta gente à toa
para ficar fofocando.
Seu negócio é pôr defeito,
seu veneno é uma festa,
nela tudo é perfeito,
mas todos sabem: não presta.
Quando um dia ela morrer
será uma grande lição:
na caixa o corpo a feder
e a língua no caminhão.
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